A decisão da Globo em 2020 de renegociar com a FIFA abriu caminho para a CazéTV dominar as transmissões e o SBT atrair Galvão Bueno.

A Copa do Mundo de 2026 não foi apenas um evento histórico por seus 48 times, 104 jogos e três países-sedes, ou pelos feitos de Lionel Messi e Kylian Mbappé na final entre Espanha e Argentina. Ela marcou uma revolução sem precedentes na mídia esportiva brasileira, encerrando um monopólio de décadas da Rede Globo sobre as transmissões.

Pela primeira vez desde 1970, a Globo não teve controle total sobre quais partidas seriam exibidas no Brasil, um cenário impensável para muitos. Essa mudança redefiniu a forma como os torcedores brasileiros acompanham o maior torneio de futebol do planeta, com novos players ganhando protagonismo e quebrando recordes de audiência em plataformas digitais.

O que parecia um “exagero” para alguns, tornou-se a nova realidade. A decisão estratégica da Globo em 2020 de renegociar seu contrato com a FIFA durante a pandemia abriu as portas para uma disputa acirrada pelos direitos, resultando em uma Copa que transformou o futuro da mídia esportiva no país.

O Fim de Uma Era na Transmissão de Copas

Desde que as Copas do Mundo começaram a ser transmitidas ao vivo no Brasil em 1970, a Globo sempre esteve presente. Inicialmente em um pool com canais como TV Tupi, Record e Bandeirantes, a emissora rapidamente se consolidou como líder, especialmente entre 1974 e 1998, com a cobertura mais avançada tecnologicamente via OTI (Organização da Televisão Iberoamericana).

Contudo, a partir de 2002 e até 2018, a Globo desfrutou de exclusividade total em todas as mídias, garantida por contrato direto com a FIFA. Durante esse período, apenas quem a Globo permitia, através de sublicenciamentos, conseguia exibir os jogos. Isso incluiu a Band na TV aberta em 2010 e 2014, e canais como ESPN, BandSports e Fox Sports na TV paga entre 2006 e 2018.

O último título da Seleção Brasileira, em 2002, teve transmissões exclusivas da TV Globo e do sportv, solidificando ainda mais sua posição. No entanto, em 2020, uma decisão crucial alterou essa trajetória: a Globo renegociou o contrato com a FIFA, abrindo mão da exclusividade digital para a Copa de 2022 e de metade dos jogos da Copa de 2026, além da exclusividade total para a metade restante.

A Ascensão da CazéTV e Novos Formatos Digitais

Essa decisão da Globo em 2020 foi a 'senha' para uma movimentação intensa no mercado de mídia esportiva. Rapidamente, a aproximação entre a empresa LiveMode e a FIFA se concretizou, culminando na criação da CazéTV em 2022, uma parceria inovadora com o streamer Casimiro Miguel.

Na Copa do Mundo do Catar em 2022, a CazéTV transmitiu 22 jogos no YouTube, alcançando recordes de audiência na plataforma. Muitos duvidavam do sucesso, já que todas as partidas estavam disponíveis no sinal aberto da TV Globo. No entanto, a repercussão positiva mostrou o potencial do formato digital e da linguagem do streamer, abrindo caminho para o futuro.

Para a Copa de 2026, a CazéTV deu um passo ainda maior, garantindo os direitos de transmissão de todos os 104 jogos, com praticamente metade deles sendo exclusivos, em parceria com o YouTube. A Globo, pela primeira vez, não pôde escolher todas as melhores partidas, alternando as escolhas com a LiveMode e, consequentemente, com a CazéTV.

Mesmo com ceticismo inicial de alguns (“A Globo na ‘hora H’ vai comprar tudo”), a realidade se impôs. Jogos importantes como as estreias da Alemanha, Portugal, Argentina e Espanha foram exclusivos da CazéTV. A plataforma de Casimiro Miguel também impulsionou fenômenos como o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, que saiu de menos de 50 mil para quase 30 milhões de seguidores no Instagram após um mutirão da LiveModeTV e CazéTV.

A Argentina de Lionel Messi, por exemplo, fez 3 a 0 na Argélia em sua estreia, com um hat-trick do craque, tudo sem um minuto de transmissão ao vivo pela Globo ou suas afiliadas como sportv e GE TV. Este novo cenário provou que a audiência estava pronta para migrar para outras plataformas e experiências.

A Concorrência se Intensifica e o Impacto na Globo

Enquanto a CazéTV ganhava força, a Globo tentava influenciar a narrativa na imprensa com dados de Ibope, enfatizando o maior alcance da TV aberta. Contudo, esses números mascaravam um problema crescente: o sportv, canal pago da Globo, perdeu relevância significativa. Um canal esportivo não ter a Copa do Mundo inteira foi um prejuízo sem precedentes desde 1998.

A concorrência se intensificou ainda mais com a entrada do SBT, que não transmitia uma Copa desde 1998. O canal de Silvio Santos, em consórcio com a N Sports (que tem Galvão Bueno como sócio), transmitiu jogos importantes da Seleção Brasileira, tirando constantemente 12 a 13 pontos preciosos da Globo em São Paulo.

A CazéTV, por sua vez, pulverizou seus próprios recordes de 2022. Se os 7 milhões de dispositivos conectados simultaneamente na eliminação do Brasil contra a Croácia em 2022 foram um choque, a Copa de 2026 trouxe números ainda mais impressionantes: mais de 21 milhões no jogo da Seleção contra o Japão e 21,3 milhões em Noruega x Inglaterra nas quartas de final.

Mesmo a eliminação precoce do Brasil nas oitavas de final, que historicamente diminui o interesse pela Copa, não freou a CazéTV. A semifinal entre Espanha e França registrou mais de 24 milhões de dispositivos conectados, confirmando que os jogos exclusivos, antes impensáveis fora da Globo, conquistaram um público massivo e consolidaram um novo padrão de consumo.

O Futuro Pós-2026 e a Reconfiguração do Mercado

Diante desses acontecimentos, é inegável que a mídia esportiva no Brasil passará por profundas transformações. A Globo dificilmente cometerá o mesmo erro de perder metade dos direitos da Copa do Mundo, especialmente após testemunhar o sucesso das plataformas digitais e o surgimento de uma nova forma de consumir o futebol.

A Copa de 2026 provou que o mundo mudou, e uma nova geração de fãs de futebol está aprendendo a desfrutar do evento independentemente das vitórias da Seleção Brasileira. Além disso, a edição com 48 países e 104 jogos mostrou-se muito mais interessante do que o ceticismo inicial sugeria, desmistificando a ideia de que haveria muitos "jogos ruins".

Para a Copa do Mundo de 2030, uma nova rodada de negociações do zero já está em andamento. A FIFA agora tem a liberdade de negociar seus direitos de forma fragmentada, como fez para 2026, o que garante um cenário ainda mais competitivo e inovador para os próximos ciclos de transmissão no Brasil.

Perguntas Frequentes

Qual foi a principal mudança na transmissão da Copa do Mundo de 2026?

A principal mudança foi a perda da exclusividade da Rede Globo sobre as transmissões, permitindo que a CazéTV adquirisse todos os 104 jogos, com metade deles exclusivos, e o SBT transmitisse partidas importantes com Galvão Bueno.

Como a CazéTV se tornou relevante na cobertura da Copa?

A CazéTV, parceria entre LiveMode e Casimiro Miguel, começou transmitindo 22 jogos da Copa de 2022 e, para 2026, adquiriu os direitos de todos os 104 jogos, com metade exclusivos, pulverizando recordes de audiência no YouTube e consolidando-se como um player chave.

Quais foram os recordes de audiência da Copa do Mundo de 2026?

A CazéTV registrou mais de 21 milhões de dispositivos conectados em um jogo da Seleção Brasileira contra o Japão, 21,3 milhões em Noruega x Inglaterra nas quartas e superou 24 milhões na semifinal Espanha x França, demonstrando a força do digital.

O que a Globo fará nas próximas Copas do Mundo após 2026?

Espera-se que a Globo reveja sua estratégia para evitar a perda de direitos de transmissão em futuras Copas, como a de 2030, que terá novas negociações do zero. O mercado agora permite à FIFA fragmentar os direitos, aumentando a concorrência.